Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza – Médico Infectologista e Epidemiologista, professor da Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista (Unesp). Membro do Comitê Estadual Paulista de Contingência contra a Covid-19. Integrante do Coletivo Rebento/Médicos em Defesa da Vida, da Ciência e do SUS


Publicado no jornal O Povo, em 4/4/20

O mundo é bem menor do que pensamos. Ninguém está 100% seguro. As doenças de transmissão respiratória, como a Covid-19, adaptam-se particularmente bem ao movimento das pessoas. Como hoje em pouco tempo se dá volta ao mundo, a área chamada “saúde dos viajantes” ganhou proeminência. A Organização Mundial da Saúde lançou a última atualização do Regulamento Sanitário Internacional em 2005, quanto todos achávamos que a gripe aviária mataria milhões de pessoas. Resumindo, sabíamos que uma pandemia aconteceria. Só erramos o vírus.
Estudos feitos no Estado de São Paulo mostraram que as doenças se iniciam nas grandes metrópoles. São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza foram vítimas do “efeito inóculo”: seus aeroportos recebem a maioria dos vôos oriundos da Europa. As Regiões Metropolitanas têm uma população em constante movimento pendular. Os geógrafos as chamam macrometrópole, ou “metrópole ampliada”. Nessa região, a Covid-19 se dissemina como um tsunami: por vizinhança, bairro a bairro, quarteirão a quarteirão. É o padrão de espalhamento por contiguidade.
Um segundo padrão segue as “vias estruturantes”, os eixos rodoviários. Nestes, o vírus dá saltos em cidades de maior influência regional, como, no Ceará, Sobral, Iguatu, Crato, Juazeiro. A partir delas, afeta as cidades menores. Esse é o momento que vivemos na pandemia: o acometimento do “Brasil Profundo”. O Oeste de São Paulo, O Cariri e mesmo os estados de Mato Grosso e Goiás estão sofrendo uma fase de crescimento exponencial, quando paradoxalmente a doença se estabiliza no litoral de grandes centros urbanos. 
Preocupa o fato de a Covid-19 avançar sobre municípios menores, com população envelhecida e menos acesso à saúde. Aumentam as responsabilidades dos governantes, e também dos cidadãos – cada um responsável por não adquirir e não passar adiante uma doença potencialmente fatal.