Liduína Rocha Obstetra, integrante do Coletivo Rebento/Médicos em Defesa da Vida, da Ciência e do SUS
Publicado no jornal O Povo, em 8/8/20

100 mil é um número simbólico. Quando criança, imaginava que era o número que dividia os ricos dos pobres! Quem tem 100 mil deve ser rico, em pensava. Depois, já crescida, descobri que 100 mil ou é dívida ou a ilusão do pertencimento do lugar de privilégio! 
Há quatro meses estávamos, todos e todas, com muitas preocupações sobre a Covid e sua visita indesejada. Parte da angústia vinha do medo de estarmos em condição de igualdade, na mesma exposição! Uma doença de europeus, ou de quem pode se mover entre continentes. Parecia uma “praga”, uma condição que subvertia os lugares sociais de privilegio. Ela veio como um carnaval, atingiu aldeia, Aldeota, mas bateu mesmo na porta de quem vive a se aperrear.
100 mil mortes depois, tudo parece mais tranquilo, esclarecido. Algum conforto foi reestabelecido: a nossa desigualdade. A Covid foi se impondo, morremos, mas não em condições de igualdade, nem nos igualando. As barreiras de acesso e assistência foram se revelando, e o SUS foi se mostrando como o território que resiste, que busca equidade, que nos humaniza. 
Chorei várias dessas mortes, algumas porque me revelavam o que a filosofia chama de “bom e belo”, o conceito socrático de vida. Aldir se foi, ficamos bêbados. Perdemos o equilíbrio.Chico se foi, vocês não o conhecem, mas eu me despedi da inocência da serra, do sertão, desses lugares que me  provocam relações que me ensinam alteridade. Chico não morreu pela Covid, foi o seu lugar social qie o matou.
Quantas dessas cem mil mortes poderiam ser evitadas? Quantas mortes se devem a ilusão de medicações que são “ouro de tolo” calculadas milimetricamente pela régua eleitoral?
Quantas dessas mortes são de negras e negros? Quantas mortes maternas Quantas vidas a menos?
Estamos falando de pessoas, e cada uma delas, deles, é uma dimensão que nenhum número compreende! É a humanidade que morre. E é a humanidade que pode nunca mais renascer!
Não são quantos e quantas, nem onde, nem como: são! Morremos 100 mil vezes no Brasil. Morremos pelas escolhas das políticas publicas, morremos pela falsa escolha da economia, morremos pela ilusão da cura, em última instância morremos pela classe, pela raça, pelo gênero. Não pela Covid, por nossas escolhas históricas.Quantas mais 100 mil vezes precisaremos morrer?