ARTIGO: ROBERTO DA JUSTA

Infectologista, professor da UFC, integrante do Coletivo Rebento/Médicos em Defesa da Vida, da Ciência e do SUS

Publicado no jornal O Povo, em 17/3/21

É inacreditável que, passado mais de ano da descoberta do novo coronavírus, depois do sequenciamento do seu genoma e de milhares de pesquisas científicas que culminaram com o desenvolvimento em tempo recorde de vacinas, ainda seja pautado e propagado o uso de medicamentos que não se mostraram eficazes no tratamento da doença.

Uma mistura de cinismo, acobertamento de incompetência na coordenação das ações de combate à pandemia pelo Governo Federal e tentativa de manipulação da fé e da espiritualidade das pessoas remonta à Idade Média e parece perpetuar essa pauta em nosso País. É o que se extrai da narrativa do senador Luís Eduardo Girão, em artigo recente publicado em O Povo.

O uso indiscriminado de cloroquina, ivermectina, azitromicina, vitamina D e zinco durante a atual crise não encontra paralelo em nenhum outro país. Não é recomendado por nenhuma entidade séria e, atualmente, não passa de uma grande farsa. Tal conclusão se dá pela observância ao que há de mais relevante e publicado na literatura científica. E aqui não cabem estudos de má qualidade, sem metodologia adequada, não submetidos ao crivo de outros pesquisadores e com resultados e conclusões questionáveis. Uma farsa que contou com a conivência do Conselho Federal de Medicina (CFM) e com a precipitação de quem divulgou “protocolos” sem lastro científico, além do oportunismo de alguns planos de saúde que disponibilizaram “kits Covid”.

A insegurança e a angústia das pessoas vêm sendo manipuladas. O estímulo ao uso de medicamentos sem benefício comprovado vai contra tudo o que se aprende em cursos de graduação e pós-graduação. A chancela dessa aberração pela entidade médica maior (CFM) vai de encontro a um dos princípios fundamentais da bioética, “primum non nocere” (“antes de tudo, não fazer mal” – ao paciente) e distorce a compreensão do que é autonomia médica.

Tal farsa tem um custo muito elevado, financeiro e principalmente de vidas perdidas. Muitos acreditaram nisso e relaxaram em medidas que realmente funcionam, como isolamento social, uso de máscara, higienização das mãos. Em outras palavras, essa crença levou muitos à morte.

A história julgará muito em breve todos aqueles que colaboraram com esta farsa do “tratamento precoce”, que desrespeitaram pacientes, familiares e profissionais de saúde, que mandaram o povo procurar vacina “na casa da mãe” e insistiram em uma falsa dicotomia entre “vida ou trabalho”. Ainda haveria tempo para arrependimento e reparação?